INTERPRETAÇÃO DE VOZ APLICADA A CENA

Por Bruna Castiel


Uma das questões cruciais quando se começa a trabalhar como ator ou artista de voz é “minha voz ficou boa na cena?” ou “minha voz ficou convincente na cena?”.


Mas o que seria essa voz boa na cena?


Esse assunto engloba alguns fatores que na nossa ânsia constante por aprimoramento do ofício nos sentimos compelidos a separar. A verdade é que os elementos que compõem nosso material de trabalho, isto é, corpo, voz e mente, são indissociáveis.


Mas em relação a voz na cena, como analisar se o trabalho está bom? Primeiro de tudo é importante que o conteúdo do que é dito seja compreendido pelo espectador, a não ser que a proposta não seja essa. Por isso precisamos estar com nossa preparação vocal em dia, visando que quem nos ouça não precise parar e se perguntar “o que foi dito mesmo?”.


Assim como os músculos corporais são treinados na academia, a voz é impulsionada por musculaturas e quanto mais bem trabalhada essa área, mais possibilidades temos como artistas. Isso propicia que possamos atingir volumes extremos, entonações e tons variados sem nos machucar.

Veja por exemplo este vídeo em que faço algumas vozes.



Isso é também fruto de um trabalho técnico, que é a preparação vocal. Pode parecer meio chato pensar em fazer aquecimento vocal, mas sem isso, a chance de ficarmos roucos, perdermos a voz ou não conseguirmos explorar nuances de personagens, é maior.


Um acompanhamento regular com um fonoaudiólogo é imprescindível para mantermos a saúde do nosso aparato vocal. E um lembrete: voz e corpo estão sempre juntinhas, afinal, a voz sai do corpo, não é mesmo? Por isso nosso corpo também precisa estar aquecido, alongado e bem trabalhado, para dar suporte a voz.

Segundo item para saber se a voz está boa na cena é o mais delicado e desafiador de perceber é quanta verdade você está expressando na cena. Mas como seria isso? Bem, não adianta termos uma voz extremamente potente e bem trabalhada, com inteligibilidade e possibilidades de entonações incríveis, se tudo se concentra no externo, na forma, e não no conteúdo.


Digamos que temos dois tipos de personagens: um protagonista heróico, galante e apaixonado lutando para salvar quem ama e um figurante que está oferecendo água para alguém no meio de uma reunião. Muitas vezes entramos na cilada de nos preocuparmos apenas com a forma de falar o texto. Lemos as sentenças de forma mecânica, tentando ressoar a voz de modo que fique bonita, e nos desconectamos da verdade da cena. Esse caminho pode levar a uma interpretação falsa.


Como artistas, devemos procurar ao máximo identificar o que move o personagem naquela cena específica em comunhão com a motivação dele em toda a história. Cada personagem tem seus objetivos e motivações. Então antes de pensar em trazer uma voz bonita e impostada para dar vida ao herói ou de tentar florear a fala comum do figurante que oferece água, saiba da intenção desses personagens e expresse utilizando seu corpo.


E note que o que importa é saber como você está expressando a verdade do personagem.. Você não precisa ser o personagem de verdade. Se você interpretar, por exemplo, um vilão homicida, obviamente você não tem que ser como ele. Mas perceber as motivações ou sensações dele na cena, como raiva ou desdém, e ser capaz de expressar isso no seu corpo e voz, vai ser o suficiente para tornar a cena verdadeira. Ou seja: psicologicamente você será diferente do personagem, mas a memória muscular capaz de exprimir no corpo ou voz as sensações, vão configurar uma interpretação convincente.


Enfim, como eu disse anteriormente, voz, corpo e mente estão acoplados, não podemos desvincular e nem deveríamos. O entendimento do texto, o trabalho vocal e corporal, junto a sua sensibilidade de artista, são todo o combustível necessário para termos interpretações de voz bem aplicadas à cena. Com muito estudo, prática e aprofundamento no universo artístico, a tendência é que possamos aprimorar nossa interpretação cada vez mais.



Bruna Castiel - é artista de voz, dubladora, locutora e voz original



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